Arsenal contra câncer inclui imunoterapia Professor da FCM/Santa Casa é entrevistado

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Em cinco a dez anos, os tipos mais comuns de câncer podem se transformar em doenças controláveis e crônicas, graças ao uso combinado de um novo arsenal de medicamentos com os já existentes e ao tratamento individualizado. Um dos avanços mais promissores é a imunoterapia, que fortalece o sistema imunológico do paciente. Para enfrentar as centenas de doenças relacionadas à proliferação descontrolada de células, continuam válidas outras abordagens como a quimioterapia e a terapia alvo, que age contra proteínas específicas.

“Cada tumor é único e estamos aprendendo cada vez mais sobre as características moleculares não somente das células malignas, como também do ambiente onde elas se encontram”, diz o médico Gilberto Lopes Jr., professor da Universidade de Miami e editor-chefe do “Journal of Global Oncology”, da Sociedade Americana de Oncologia Clínica. Ele lembra que o tratamento individualizado já é feito hoje, principalmente em câncer de mama, pulmão e cólon.

O farmacêutico-bioquímico Wagner Montor, pesquisador na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, enfatiza a relevância da pesquisa básica realizada nas universidades públicas. “É um investimento a fundo perdido, pois existe a possibilidade de pesquisar a eficácia de milhares de moléculas e não chegar a um resultado”, afirma. “Só nas fases finais, quando o ‘filé’ já está quase assado, é que os laboratórios começam a se interessar, porque o investimento é mais seguro”, diz.

Em 2018 houve 18,1 milhões de casos novos de câncer e 9,6 milhões de mortes pela doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Um terço das mortes estão relacionadas a cinco fatores de risco: alto índice de massa corporal, baixo consumo de frutas e verduras, sedentarismo, uso de tabaco e uso de álcool. No Brasil foram registrados 582,6 mil casos novos em 2018, conforme o Ministério da Saúde. O câncer de mama é o que mais acomete as brasileiras, com quase 60 mil casos por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Em maio a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a primeira imunoterapia para tratar câncer de mama triplo-negativo na fase de metástase, criada pelo Grupo Roche, de origem suíça. A combinação do atezolizumabe com a quimioterapia nab-paclitaxel reduziu em 38% o risco de morte da paciente. O laboratório também teve aprovado o medicamento oral Alecensa (alectinibe), para tratar um tipo de câncer de pulmão que em geral afeta mulheres jovens e não fumantes.

“A Roche investe 20% do faturamento bruto em pesquisa e tem hoje mais de cem moléculas sendo testadas em medicamentos para câncer”, informa seu diretor médico Lenio Alvarenga. “Buscamos não apenas novas moléculas, como também definir quais são as melhores combinações para usá-las.” Ele acredita que, no futuro, o poder da inteligência artificial e da “data analytics” vão dar grandes contribuições para diagnósticos clínicos e tratamentos.

Nos próximos meses, chega ao país um novo fármaco para tratar câncer de mama: o Herzuma, biossimilar do composto trastuzumabe. Biossimilares são medicamentos biológicos feitos de moléculas semelhantes aos produtos de referência, com o mesmo perfil de segurança e eficácia. O Herzuma será comercializado em parceria entre a brasileira Biomm e a sul-coreana Celltrion Healthcare.

A Anvisa também aprovou o Opdivo (nivolumabe), imuno-oncológico da Bristol-Myers Squibb para tratar adultos com melanoma, linfoma de Hodgkin, câncer de pulmão, cabeça e pescoço, rins e bexiga. Outros dois imuno-oncológicos que a empresa farmacêutica americana distribui aqui são o Yervoy (ipilimumabe), para melanoma e câncer renal, e o Empliciti (elotuzumabe) para mieloma múltiplo.

No final de 2020, a suíça Novartis vai trazer ao Brasil uma inovação no tratamento de alguns tipos de leucemia e linfoma: a terapia celular e gênica, 100% individualizada. Ela consiste na alteração genética de tipos específicos de células do paciente, que são reinseridas no corpo. Até 2022, o plano é lançar no país um medicamento para tratar leucemia e outro para câncer de pulmão, além de investir R$ 1 bilhão em pesquisa clínica, que investiga a segurança e a eficácia de novos fármacos em humanos.

“É preocupação da empresa tornar as terapias mais acessíveis”, diz o diretor médico de oncologia, André Abrahão. “Temos conversado com associações de pacientes e outros envolvidos para entender a necessidade real e discutir modelos de acesso.” O diretor médico lembra que, apesar dos avanços no tratamento, o câncer ainda é uma doença grave que demanda prevenção e diagnóstico precoce.

Reportagem de Dauro Veras
Para o Valor Econômico, de Florianópolis
Publicado em 27/9/2019

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