Centenas participam de caminhada pela inclusão dos surdos no Parque Villa Lobos Iniciativa do Hospital e da Faculdade da Santa Casa de São Paulo também visa à prevenção de perdas auditivas irreversíveis pelo uso incorreto de fones de ouvido

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Passear de domingo em um parque público como o Villa Lobos, na zona oeste do município de São Paulo, faz parte da rotina de muita gente. Mas, neste dia 23, aos habituais frequentadores do local uniram-se pessoas com um propósito além do lazer: a conscientização sobre as potencialidades da comunidade surda e a importância de sua efetiva inclusão na sociedade.

Para dar visibilidade aos surdos e mostrar que são tão capazes de comunicarem-se quanto os ouvintes, foi realizada a 7ª Caminhada do Silêncio, uma ação social promovida pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), com apoio da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Santa Casa de São Paulo e da Academia Brasileira de Audiologia.

O movimento comemora o Dia Nacional do Surdo, celebrado em 26 de setembro.  Desde seu início, em 2012, ganhou adeptos a cada ano, entre profissionais de saúde, integrantes da comunidade surda, pessoas com deficiência auditiva, familiares e amigos, que acompanham as novidades pelas redes sociais e mobilizam-se para participar da caminhada em um clima de descontração, confraternização e troca de experiências.

A incomunicabilidade da pessoa surda é um estigma que deve ser combatido. Nem todo surdo é mudo, sendo que alguns se comunicam oralmente.  Eles podem ser bilíngues, utilizando também a Libras – Língua Brasileira de Sinais, segunda língua oficial do país.  Pessoas com deficiências auditivas podem usar dispositivos eletrônicos para obterem maior percepção do som: o implante coclear, indicado para perda severa a profunda, ou o Aparelho de Amplificação Sonoro Individual (AASI), recomendado para perda moderada a severa.

Ação social em prol da igualdade

“A inclusão não acontece por imposição e nem por lei, mas sim por meio da movimentação social”, defende a Profa. Dra. Cilmara Levy, docente da FCM/Santa Casa, fonoaudióloga da ISCMSP e coordenadora da campanha.  Ela ressalta que a caminhada tem como objetivos a busca pela igualdade e a luta contra o preconceito, que leva o surdo a ter dificuldades em comunicar-se e a isolar-se socialmente. “A discriminação social faz com que o surdo não queira usar aparelho ou sinta-se constrangido ao trocar a pilha do dispositivo em público. Ou ainda que algumas mães sintam-se despreparadas com a chegada de um filho surdo, achando que ele jamais será independente”, exemplifica.

Participaram da caminhada no domingo centenas de pessoas, incluindo integrantes da comunidade surda, com diferentes graus de perda auditiva. Usando Libras ou língua oral, eles compartilharam suas vivências com os demais presentes, contando com o apoio das fonoaudiólogas da equipe da Santa Casa para tradução, quando necessária.

No total, cerca de 700 camisetas foram distribuídas para a caminhada, que, na verdade não foi silenciosa. “A ideia é que caminhem, brinquem, interajam, façam novas amizades, gritem que a pilha do seu aparelho acabou! Nesse dia, o silêncio é só para quem não quer ouvi-los”, disse Cilmara. Muitos levaram a família completa, com crianças pequenas, bebês de colo e animais de estimação, todos com a camiseta do movimento, distribuída na entrada do parque àqueles que iriam participar do evento.

Cuidado com o volume de seu fone de ouvido

Outra finalidade da Caminhada do Silêncio é a prevenção da perda auditiva, em especial a que é relacionada à exposição a músicas com volume muito alto, através do uso de fones de ouvido por tempo prolongado. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em 2017, estimam que, aproximadamente, 1,1 bilhão de pessoas dos 12 aos 35 anos de idade correm o risco de ter perdas auditivas irreversíveis por este motivo.  De acordo com a OMS, nos países de média e baixa renda, cerca de 50% das pessoas de 12 a 35 anos escutam música em intensidade e duração consideradas perigosas para a audição.

A professora Cilmara alerta que, no Brasil, nos últimos 15 anos, houve aumento de perdas auditivas pelo uso prolongado de fones de ouvido com volume acima do aceitável. Segundo o National Institute for Occupational Safety and Health, o limiar de segurança é de sons com volume de 85 decibéis (dB), que podem ser ouvidos por um máximo de oito horas. Conforme o volume aumenta, o tempo seguro de exposição cai. Existem aparelhos que propagam até 136 dB, exigindo a atenção de seus usuários.

No dia da caminhada, as fonoaudiólogas da faculdade e do hospital da Santa Casa de São Paulo focaram seus esforços na educação por meio de uma atividade lúdica. Com uma tenda montada na entrada principal do Parque Villa Lobos, elas convidaram frequentadores do parque que estavam com fones de ouvido a medir o volume dos seus tocadores no momento da abordagem.

Dois manequins com roupas esportivas, a Duda e o Caio, foram equipados com um decibelímetro em seu interior. Para saber a quantidade de decibéis, bastava colocar os fones de ouvido no boneco de preferência. Com base na potência do aparelho do usuário, as fonoaudiólogas orientaram o ponto limite do volume para evitar danos. Como regra geral, a dica é usar o volume até um pouco mais que a metade de sua capacidade. Alguns tocadores já orientam qual o limite adequado, recurso que deve ser aproveitado pelo usuário.

Outros cuidados podem ser tomados por quem ouve música com frequência. Os fones de ouvido externos são mais seguros do que aqueles que são inseridos dentro do ouvido (como os que vêm com os smartphones). A cada hora de música, é recomendável retirar os fones para uma pausa de 10 minutos.  É importante que, mesmo com o aparelho ligado e os fones no ouvido, o usuário consiga ouvir o som ao seu redor. Deve-se também ficar atento a sintomas como zumbido, tontura e dor de cabeça.

Mais informações sobre o Dia Nacional do Surdo e vídeo com a participação de Sylvia Lia, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, sobre a importância de refletir sobre as dificuldades de comunicação que os surdos enfrentam no dia a dia e a necessidade da sociedade ter mais empatia em relação a eles: http://www.fcmsantacasasp.edu.br/dia-nacional-dos-surdos/

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