Estudo revela prejuízos no cérebro de adolescentes obesos Pesquisa, que teve a participação de estudantes e professores da Santa Casa de São Paulo, repercutiu internacionalmente na mídia e no meio acadêmico

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Pesquisadores da Faculdade de Ciências Médica da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP) são os autores principais de um estudo brasileiro que aponta relação entre obesidade e danos cerebrais em adolescentes. Com o maior número amostral na literatura científica até agora, a pesquisa avaliou 120 pessoas entre 12 e 16 anos: 59 obesos e 61 com Índice de Massa Corporal (IMC) adequado, repercutindo na mídia brasileira e de diversos países ao redor do mundo, como Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Rússia, Grécia, Polônia, China e Turquia.

Imagens obtidas a partir de ressonância magnética evidenciaram alterações na substância branca (matéria rica em fibras nervosas encontrada nos tecidos mais profundos do cérebro) dos adolescentes obesos, com prejuízos em regiões responsáveis pelo controle das emoções e do apetite, bem como pela cognição. Para a análise, foi utilizada a técnica conhecida por DTI (Difusion Tensor Imaging), que rastreia a difusão da água na substância branca durante a transmissão de determinados sinais pelo cérebro.

“Encontramos redução de integridade de substância branca em regiões do corpo caloso, estrutura nervosa que liga os hemisférios esquerdo e direito e é responsável pela função cognitiva”, revela a biomédica Pâmela Bertolazzi, pesquisadora da ISCMSP e do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. “Essa constatação corrobora estudos anteriores que detectaram menores resultados em testes de QI realizados em crianças obesas quando comparados com aqueles obtidos por crianças saudáveis”, explica Bertolazzi, autora principal do estudo, em conjunto com professores da FCMSCSP (Ricardo Uchida, Cristiane Kochi e outros).

“Também verificamos alterações no giro órbito-frontal médio do cérebro, que se conecta ao sistema límbico, ligado às emoções e ao circuito de recompensa cerebral, onde são processadas as sensações de prazer. Estes danos podem desencadear compulsividade alimentar”, completa Bertolazzi.

Para aferir as condições da substância branca, os pesquisadores utilizaram a medida chamada “anisotropia fracionada” (FA, na sigla em inglês). Reduções de FA são relacionadas a danos nesta região do cérebro. Ao examinarem todos os participantes, os cientistas encontraram valores mais baixos de FA nos obesos.

Análises laboratoriais comprovaram, ainda, correlação positiva entre os danos cerebrais verificados por meio da ressonância magnética e níveis elevados no sangue dos hormônios leptina e insulina, além da presença de biomarcadores inflamatórios como IL6/IL10. “Isso indica um processo inflamatório a partir da resistência à leptina e insulina causada pela obesidade”, esclarece Bertolazzi.

Produzida pelas células adiposas, a leptina regula o apetite e as reservas de gordura. A resistência a este hormônio mantém a pessoa comendo mesmo com níveis satisfatórios ou excessivos de energia, causando maior produção de leptina. Já a insulina é sintetizada pelo pâncreas e controla os níveis de glicose no sangue. A resistência à insulina, por sua vez, leva a um risco aumentado de desenvolvimento de diabetes tipo 2.

Segundo Bertolazzi, novos estudos serão conduzidos com o mesmo grupo de adolescentes após tratamento multiprofissional dos obesos para perda de peso. “Depois desta etapa, repetiremos os exames para investigar se os danos cerebrais são reversíveis”, planeja. Adicionalmente, pesquisadores irão verificar se as lesões cerebrais também causam inflamação. As investigações acontecem no âmbito do grupo de pesquisa “Associação da obesidade infantil com sistema nervoso central: estudo de tensor de difusão (DTI), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Saiba mais:

MRI scans reveal what obesity does to the brains of teens – Newsweek, 25/11/2019

Pesquisa brasileira detecta alterações no cérebro de jovens com obesidade – Revista Galileu, novembro/2019

MRI Reveals Brain Damage in Obese Teens – Radiological Society of North America (RSNA), novembro/2019

Obese teenagers show signs of brain damage, MRI scans show, The Thelegraph, 25/11/2019

 

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Vanessa Krunfli Haddad

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