Prof. Dr. Victor Otani explica sinais, causas e estratégias para enfrentar este período desafiador
O fim do ano, geralmente lembrado pelas celebrações, férias e reencontros, também tem se mostrado um período de maior vulnerabilidade emocional. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a incidência de sintomas de ansiedade e estresse pode aumentar até 20% entre novembro e janeiro, impulsionada pelo acúmulo de demandas profissionais, pelas expectativas sociais e pelo uso intensificado das redes sociais.
Para o Prof. Dr. Victor Henrique Oyamada Otani, psiquiatra e docente do Departamento de Saúde Mental da Faculdade Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), esse conjunto de fatores transforma o período em um ambiente propício ao adoecimento emocional.
“O fim do ano forma uma tempestade perfeita: metas não cumpridas, prazos acumulados, idealizações nas redes sociais, piora do sono, aumento do consumo de álcool e convivência forçada em alguns contextos”, explica o professor.
Segundo Otani, o esgotamento emocional característico dessa época vai além do cansaço típico da rotina. Entre os sinais que merecem atenção estão:
nevoeiro mental (brain fog),
irritabilidade,
alterações no sono,
dores de cabeça,
sintomas gastrointestinais,
perda de interesse por atividades antes prazerosas.
“É como se a bateria nunca carregasse totalmente, deixando a pessoa em constante sensação de cansaço”, afirma o docente.
O psiquiatra destaca que o burnout é um transtorno ocupacional diretamente ligado ao trabalho, e sua principal diferença em relação ao cansaço comum está na capacidade de recuperação.
“Se consigo descansar no fim de semana, provavelmente é o cansaço típico do período. No burnout, não há recuperação plena”, explica.
Nos últimos anos, o burnout tem se tornado uma preocupação crescente no Brasil. Em 2023, o país esteve entre os cinco com maior incidência da síndrome no mundo, e aproximadamente 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sinais da condição — índice inferior apenas ao registrado no Japão.
De acordo com o professor, parte da sobrecarga percebida nas últimas semanas do ano é autoimposta e reforçada pelas redes sociais. A comparação constante e a sensação de não ter alcançado metas estimulam frustração e ansiedade.
“Biologicamente, 1º de janeiro é igual a qualquer outro dia. Mas socialmente criamos significados que aumentam a cobrança. É preciso desenvolver flexibilidade cognitiva e entender que prazos podem ser ajustados”, orienta.
Essa dinâmica intensifica a percepção de que “todos conquistaram algo, menos eu”, um fenômeno recorrente nas redes e potencialmente prejudicial para a saúde mental.
Para pessoas que vivenciaram perdas recentes ou se encontram isoladas, o fim do ano pode intensificar sentimentos de tristeza, solidão e desconexão. A exposição contínua a imagens idealizadas de famílias e celebrações, especialmente nas redes sociais, tende a agravar esse cenário.
Estudos recentes apontam a solidão como fator de risco para diversas condições físicas, incluindo doenças cardiovasculares. Uma estratégia recomendada pelo psiquiatra é buscar conexões reais, como a participação em ações voluntárias.
“O voluntariado ativa centros de recompensa do cérebro e favorece um reencontro consigo mesmo”, destaca.
Otani orienta que pequenos ajustes na rotina podem contribuir significativamente para um período mais equilibrado emocionalmente. Entre as recomendações estão:
reduzir o consumo de álcool;
priorizar o sono;
manter atividade física regular;
praticar meditação ou mindfulness;
buscar acompanhamento psicológico preventivo.
O principal alerta está na queda de funcionalidade: “Se o estresse começa a impactar trabalho, relações e tarefas básicas, é hora de procurar ajuda profissional”, reforça.
Para o especialista, cuidar da saúde emocional no fim do ano está menos ligado à produtividade e mais à capacidade de criar pausas intencionais. “Não é preciso renascer no dia 1º, nem resolver tudo antes do mês acabar. Às vezes, a maior demonstração de autocuidado é simplesmente permitir-se respirar.”