1/7/2020

Centenário de falecimento do Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho Médico que dá nome à Fundação deixa legado a médicos, funcionários e alunos

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Há pouco mais de 100 anos, aos 5 de junho de 1920, faleceu, em São Paulo, o Médico Professor Doutor Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho, patrono que dá nome à Fundação filantrópica, de caráter educacional, sem fins lucrativos, instituída em 14/9/1962, que tem como objetivo manter a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Arnaldo nasceu em Santos (SP), aos 5 de Janeiro de 1867, sendo o primeiro dos seis filhos de Carolina Xavier Vieira de Carvalho (1841-1899) e de Joaquim José Vieira de Carvalho (1841-1899, advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (em 1881); tornou-se catedrático de Economia Política dessa instituição; foi ainda Juiz Municipal em Campinas, Deputado Provincial pela União Conservadora e Vice-Presidente da Província de São Paulo no governo de Francisco Antonio Dutra Gonçalves. Com a proclamação da República, foi deputado estadual e senador, chegando a Vice-Presidência da Província de São Paulo).

Arnaldo diplomou-se em Medicina, em 1888, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ainda como estudante, nas férias, frequentava a Santa Casa de São Paulo (que então era o maior, se não o único Hospital Geral da Província) tendo um intenso aprendizado com o médico Pereira Barreto, a quem foi aproximado pelo pai, que também o auxiliou a ser nomeado, entre 1888 e 1889, Assistente Voluntário daquele Hospital tornando-se, de imediato, médico responsável pela Hospedaria dos Imigrantes, onde trabalhou até 1889, atuando, principalmente na redistribuição dos pacientes em novas alas e na organização do necrotério (na época em que grassava a febre amarela que se alastrava entre os imigrantes que chegavam).

Entre 1893 e 1913 ocupou a direção do Instituto Vacinogênico (atual Instituto “Emílio Ribas”), colaborando com a ampliação da produção dos insumos necessários para o combate à varíola, doença responsável por grande número de óbitos naquele momento.

Na Santa Casa, o Doutor Arnaldo (a partir de 5 de Maio de 1889) ocupou os cargos de Médico-Adjunto, Médico Cirurgião, Vice-Diretor Clínico e Diretor-Adjunto, na Diretoria do Diretor Doutor Pereira Barreto que, em junho deste ano, mercê de sua viagem à Europa, legou o posto ao seu segundo.

Em 1894, foi nomeado Chefe de Clínica e Diretor Médico do Hospital da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Neste posto destacou-se pela organização dos serviços de saúde oferecidos pelo Hospital da Irmandade, dedicando-se em ampliar, reformar e criar novos  serviços assistenciais.

Em função de sua cultura, em 1912 fundou a Sociedade de Cultura Artística (que presidiu entre 1912 e 1920. Depois, em 1914, criou a Revista Annaes Paulistas de Medicina e Cirurgia. Mas a sua principal ação, para o aprimoramento da Ciência Médica, foi a criação da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 1895.

Arnaldo ganhou destaque justamente por encabeçar as reivindicações dos membros desta Sociedade, para que fosse cumprida uma lei promulgada em 1891 que previa a criação de uma Escola Médica no Estado de São Paulo (no país existiam então apenas duas: uma em Salvador (BA) e uma no Rio de Janeiro; justificava-se tal criação pelo aumento da população, principalmente necessitando São Paulo de mais médicos, dado o incremento populacional. Também participou da criação do Instituto Pasteur.

Possuidor de uma intensa autoridade profissional e política, foi capaz de impor métodos e metodologias de higiene no tratamento dos doentes que a tradição custava a aceitar, ou então que a falta de recursos materiais das instituições hospitalares dificultava aplicar. Aos 04 de Outubro de 1891 ocupou o criado cargo de Diretor Clínico do Hospital da Irmandade da Misericórdia de São Pulo (que acumulará com o de Chefe da Clínica Ginecológica (e Catedrático dessa matéria quando da fundação da Faculdade de Medicina e Cirurgia).

Sua atividade intensa e sua dedicação médica junto aos pacientes o fez participar da Mesa Administrativa da Irmandade (o que era inusitado aos médicos pertencentes aos quadros da instituição hospitalar). E como Mesário, após um intenso trabalho que ele desempenhou junto à classe médica e política, o então Presidente do Estado de São Paulo, Francisco de Paula Rodrigues Alves, e seu Secretario do Interior (Altino Arantes),  assinaram a Lei nº 1.357, aos 12 de Dezembro de 1912, criando a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Para otimizar sua estrutura educacional, Arnaldo viajou a Europa (por oito meses) para conhecer os melhores centros de formação e informação médicas e aplicá-los às necessidades nacionais (e ao Estado de São Paulo, em particular) da nova Escola. Que aos 02 de Abril de 1913, a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo iniciou suas atividades, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, nos altos do Arouche.

Iniciadas as atividades da Faculdade, Arnaldo foi nomeado seu Diretor, sendo o responsável pela escolha dos nomes (brasileiros e estrangeiros) que formaram o seu corpo docente inicial, mantendo intensa parceria com a Fundação Rockefeller. Dentre as inovações curriculares, e com o apoio desta Fundação, instituiu o estabelecimento de duas Disciplinas fundamentais à Medicina :  Higiene e Patologia.

E mais: essa parceria resultou na criação de novos departamentos, na formação de estudantes brasileiros em universidades e instituições norte-americanas, e no financiamento da construção do edifício-sede para as cadeiras básicas da Faculdade, na Estrada do Araçá.

Obtido o financiamento para este último empreendimento, a construção do hospital-escola da Faculdade de Medicina ficou sob a responsabilidade do governo paulista, sendo inaugurado em 1931. A Estrada do Araçá passou a ser, a partir daí, e devidamente, denominada Avenida Doutor Arnaldo.

Similarmente, o Hospital de Clínicas da Faculdade (para as atividades de Internato dos estudantes, ainda realizado na Santa Casa, começou a ser idealizado e, com financiamento da Fundação Rockfeller, construído, sendo inaugurado em 20 de Abril de 1944.

Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho

O Doutor Arnaldo participou de todas importantes questões médico-sociais de seu tempo e, com o pseudônimo de “Epicarnus”, ainda escrevia artigos na imprensa sobre questões de saúde e de organização médica, considerando a Capital paulistana um local de fundamental importância para a classe médica, mas com graves problemas sociais; nos seus textos, afirmava que a Medicina podia contribuir para solucionar diversos problemas com a formação de profissionais cada vez de melhor qualidade e a utilização de técnicas avançadas (sendo essa sua preocupação o germe da criação de uma Escola Médica em São Paulo). Nesse sentido, renovou os métodos cirúrgicos em São Paulo, introduzindo recentes conquistas científicas, praticando, pela primeira vez no Estado, por exemplo, a gastrectomia.

O ano de 1918 caracterizou-se (desafortunadamente) pela pandemia que recebeu o nome de Gripe Espanhola.

Em 1918, o Doutor Arnaldo foi figura central na luta contra ela na cidade e no Estado,  supervisionando a construção de hospitais de campanha, organizando cerca de mil leitos da Santa Casa de Misericórdia para o tratamento de infectados e mobilizando professores e alunos da Faculdade de Medicina e Cirurgia para coordenar e atuar nos postos de atendimento médico espalhados pela cidade.

A Faculdade também cedeu, sob sua liderança e sob suas determinações, laboratórios e pesquisadores que se dedicaram às pesquisas para melhor compreender os efeitos da gripe e buscar formas mais efetivas de tratamento, enquanto a Cátedra de Medicina Legal realizava necropsias e estudos para contribuir no melhor conhecimento da ação da doença.

O falecimento do Dr. Arnaldo, com 53 anos, ocorrido na Santa Casa, devido a complicações de uma cirurgia, onde feriu-se com o bisturi que manuseava, gerou grande impacto na classe médica e na imprensa. Durante uma intervenção cirúrgica, feriu a mão, contaminou-se e a infecção evoluiu a uma septicemia.

Aos 5 de Junho de 1920 faleceu. O prefeito de São Paulo, Firmiano Pinto, enviou uma coroa como homenagem da cidade, assim como fez Arnaldo de Aguiar, pela Câmara Municipal de Santos. A Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo decretou luto de oito dias, suspendendo todos os trabalhos, nomeando uma Comissão para apresentar as condolências à família Vieira de Carvalho. A Câmara Federal emitiu uma nota de pesar e a Sociedade de Medicina e Cirurgia decretou luto também de oito dias, fechando a sua sede social. As Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro se mobilizaram e designaram representantes para homenagear o falecido.

Sediado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o Pavilhão dedicado ao tratamento de portadores de câncer foi denominado, em 1920 e como homenagem póstuma, Instituto do Câncer  “Arnaldo Vieira de Carvalho”.

Quando a nova sede da Faculdade (com endereço na Estrada do Araçá, que foi rebatizada com o nome Avenida Doutor Arnaldo) foi inaugurada, em 1931, foi colocado um busto, em bronze, de seu fundador à frente do pavilhão principal do edifício. Isso levou o prédio e, por extensão, a Faculdade, ser  denominada “a Casa de Arnaldo”. A Avenida Municipal, novo nome da Estrada do Araçá, endereço da instituição, no mesmo ano, passou a ser a Avenida Doutor Arnaldo. No Hall dos Provedores, no Museu da Santa Casa de São Paulo, existe um busto realizado pelo escultor Pinto do Couto, fundido, em 1926, em bronze. É do acervo do Museu, ainda, uma tela a óleo, datada de 1907, de Oscar Pereira da Silva, que retrata o médico.

Essas obras e a escultura de Amadeu Zane que está nos jardins da Santa Casa no Arouche, próximo da Capela desde 1921, lembram à comunidade de docentes, de funcionários técnico-administrativos e de alunos da Faculdade de Ciências Médicas, além dos milhares de doentes que recorrem ao Hospital, a importância do Professor Doutor Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho para o ensino, para a pesquisa e para a assistência médica do Estado de São Paulo e do Brasil, fazendo-o digno integrante de insignes médicos e membros da Irmandade (como Rubião Júnior, Emílio Ribas, Souza Queiroz, Synesio Rangel Pestana, Frederico Steidel, Sampaio Vianna, Washington Luiz Pereira de Souza, Oliveira Fausto, Adolpho Lindemberg, Vieira de Carvalho, Albuquerque Lins, Baeta Neves, Ramos de Azevedo, Peixoto Gomide, José Ayres Neto, Silva Prado, Macedo Soares, Lacerda Franco, entre outros notáveis).

Dentre as várias mensagens emitidas durantes as homenagens fúnebres ao Doutor Arnaldo  selecionei a seguinte (de um anônimo):

“Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho extinguiu-se. O Bronze já lhe fixou as linhas corretas do perfil augusto, e a História, não lhe podendo retratar o espírito, cantará (para sempre) a sua obra gigantesca.”

Outra mensagem (de Frederico Steidel) é a seguinte:

“O Doutor Arnaldo, provido de conhecimentos profundos, cautela atenta, técnica irrepreensível, dedicação paternal aos seus doentes, honestidade profissional e científica impoluta, solidariedade de classe inabalável, honrou o seu país, a sua profissão e mais que tudo honrou a Santa Casa de Misericórdia que teve nele um padrão de glória, sendo o maior de todos os seus benfeitores, tanto os passados como os futuros.”

Sou filho amantíssimo da Santa Casa…

Tenho pela Santa Casa o mais sagrado respeito.

A ella liga-se ardente reconhecimento.

Nella eduquei-me e nella fiz-me médico.

Para ella gravita meu espírito e para ella, – assim o creio,

gravitará ele até o momento de dispensar das energias

constituintes únicas do meu ser”.

                                                                                                             ARNALDO AUGUSTO VIEIRA DE CARVALHO

Bibliografia
450 anos de história da medicina paulistana/Organizadores Gilberto Natalini e José Luiz do Amara; coordenadores Guido Arturo Palom, Ivomar Gomes Duarte e Luiz Antonio Nunes. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. 368p.

AMARAL, Tancredo do. Educação Cívica, história de São Paulo: ensinada pela biographia de seus vultos mais notáveis. Rio de Janeiro/São Paulo, Alves & Cia, 1895. p.259-65.

Arnaldo Vieira de Carvalho e a história da medicina paulista (1867-1920). Coleção Memória do Saber. Organizadoras Maria Amélia Mascarenhas Dantes e Márcia Regina Barros da Silva. Fundação Miguel de Cervantes, 1912.

CARNEIRO, Glauco. O poder da misericórdia: a Irmandade da Santa Casa na história social e política de São Paulo — 1560/1985. São Paulo, Press Grafic, 1986. v.1 il.

FARINA, Duílio Crispim.   Medicina no Planalto de Piratininga.  São Paulo. Pannartz, 1981. 336p.

Vieira de Carvalho, Arnaldo, pág. 1753 – Grande Enciclopédia Universal – edição de 1980 – ed. Amazonas.

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