13/06/2022

Médico formado na segunda turma de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo expôs desenhos no hall da Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho Exposição “Desenho enquanto pensamento e como cura”, de José Luiz Pistelli, teve visitação gratuita entre 9 de maio e 6 de junho

Encerrou-se na segunda-feira, 6 de junho, a exposição “Desenho enquanto pensamento e como cura” do Dr. José Luiz Pistelli, que trouxe 22 desenhos originais restaurados. Pistelli é egresso da segunda turma do Curso de Medicina da FCMSCSP, é médico nas especialidades de ortopedista e cirurgia. Sua vocação de desenhista e artista é um divisor de águas em sua carreira.

Desenhista autodidata, Pistelli começou a desenhar quando ainda estava no Ensino Fundamental, inspirado pelo amor e a dedicação que a mãe tinha com a anatomia dos animais.

De acordo com o doutor, desde os 6 anos de idade, a mãe dissecava os animais de estimação que morriam e mostrava para ele como cada órgão funcionava. Quando um peixe morria, por exemplo, ela dissecava e ensinava a ele sobre e como o animal respirava. “Foi uma semente que surgiu na minha cabeça e que foi se desenvolvendo, depois de muitos anos que eu percebi isso. E quando eu fui para a escola, eu fui desenhar aquelas coisas baseado no que ela falava e o que eu via”, explica Pistelli.

Apesar de ter iniciado suas obras inspirado na anatomia dos seres vivos, o desenho surgiu antes do desejo de cursar Medicina. Segundo ele, o desejo de ser médico surgiu de uma conversa com o pai, logo após uma troca de ideias com seu antigo professor do Ensino Médio. “Eu tinha um professor de desenho, e ele conversando comigo falou ‘você tem um traço anatômico’, eu tinha 13 anos e eu nunca tinha ouvido falar sobre isso, e ele falou ‘por que você não desenha sempre?’ e me emprestou um livro de anatomia”, relembra.

“Quando cheguei em casa, falei pro meu pai ‘achei uma profissão, vou ser desenhista’, nessa época já tinha conversado com ele que eu gostaria de fazer medicina, mas depois que o professor falou do desenho, eu sei que deveria ser desenhista, e meu pai falou que um médico pode desenhar, mas um desenhista, não faz medicina”, completa Pistelli.

A influência tanto para medicina, quanto para seus desenhos surgiram de forma natural, permitindo Pistelli a evoluir seus conhecimentos e seus traços anatômicos de maneira espontânea.

Durante a faculdade de Medicina, já na FCMSCSP, por exemplo, o desenhista utilizava seus desenhos como lazer, mas também como estudo, inspirando seus colegas de turma e, futuramente, de profissão. “Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, isso em 1963, eu já tinha uma percepção grande de desenho, então passei a desenhar os cadáveres que dissecava”, diz. “Nesse momento, eu comecei a perceber que meus colegas de turma estudavam pelos meus desenhos, aí passei a guardar minhas cartolinas de desenho”.

Já em sua residência em Ortopedia e Traumatologia, realizada no Pavilhão Fernandinho Simonsen da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, seus desenhos e gostos se tornaram mais definidos, visto que no curso pode aprender mais sobre a forma humana. “Pra mim foi um desenvolvimento cerebral maravilhoso, que eu nunca vou esquecer, nem se eu tivesse viajado para o universo eu não teria aprendido tanto quanto eu aprendi lá”, aponta. “E isso devido à identificação que eu tinha com os pacientes, com a forma humana, com a musculatura, com as cirurgias ortopédicas, com as articulações, com os ossos e os tendões”, explica nostálgico.

Além de fundamental para seu desenvolvimento pessoal e profissional, a prática também definiu suas próximas ações como desenhista: a produção de livros-desenhos sobre seus pacientes. O inovador e exclusivo método de desenhar antes da cirurgia serviu para clarear suas ações durante o procedimento, perceber detalhes específicos de cada paciente, além de aprimorar seu talento tanto como desenhista, quanto como cirurgião. “A partir deste momento, comecei a desenhar durante a consulta: eu estava consultando, queria mostrar uma deformidade, uma fratura, aí eu pegava o papel, fazia um traço, e comecei a pegar muita prática nisso”, aponta Pistelli.

“E isso começou a fazer uma relação médico-paciente muito interessante, porque eles participavam do planejamento para a cirurgia. As cirurgias acabaram se tornando um desenho pra mim, agora faço de forma mais artística, mais detalhada, com mais cuidado e com a mão mais leve”, comenta.

Com inúmeros desenhos feitos, surgiu, então, seu livro chamado “O Lápis e o Bisturi” (Editora Attar, 2013), além da motivação de enquadrar seus desenhos e os expor. Agora com 81 anos, José Pistelli realizou mais uma exposição, mas, desta vez, foi pensado em desenhos mais artísticos, processo este que também ocorreu de forma espontânea. “Minha filha, que tem um ateliê, me sugeriu essa exposição”, diz. “Tenho milhares de desenhos, mas esses desenhos específicos estavam no meu ateliê em casa e eu comecei a perceber que eles poderiam ser expostos porque são desenhos que são mais naturais como desenhos”, completa.

Assista a entrevista completa:

A exposição de José Luiz Pistelli “Desenho enquanto pensamento e como cura”, tem a curadoria de Marcelo Salles e produção de Mariana Porto. Para ver alguns de seus desenhos sobre a anatomia de seus pacientes, basta acessar o site pessoal. Em novembro de 2011, o Dr. José Luiz Pistelli foi entrevistado no Projeto Santa Memória. Num dos trechos mais marcantes do seu depoimento ele diz que “Medicina é um aprendizado diário.” Talvez por isso Pistelli goste tanto de desenhar.