25/11/2021

Trabalho de aluna da Faculdade da Santa Casa de SP é premiado com primeiro lugar em congresso da Faculdade de Medicina da USP Beatrice Rodrigues Ranieri (D) foi orientada pela professora Dra. Roberta Sessa Stilhano Yamaguchi, do departamento de Ciências Fisiológicas da FCMSCSP

O trabalho da aluna do quarto ano do curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), Beatrice Rodrigues Ranieri, foi premiado com o primeiro lugar na categoria “Painéis da Área Básica” durante o 40º Congresso Médico Universitário da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), cujo resultado foi divulgado no início do mês.

A pesquisa de Beatrice, ‘Efeito regenerativo de diferentes preparações de PRP em modelo de lesão celular 3D’ foi desenvolvida durante dois anos por meio de bolsa do PIBIC-CNPQ, com orientação da professora Dra. Roberta Sessa Stilhano Yamaguchi, do departamento de Ciências Fisiológicas da FCMSCSP. O objetivo do estudo foi avançar na investigação sobre a efetividade do uso de Plasma Rico em Plaquetas (PRP) no tratamento de lesões musculares. “Nosso problema inicial esteve focado nas lesões musculares, principalmente as que são muito extensas e, por isso, mais difíceis de serem tratadas de forma conservadora, com anti-inflamatórios ou repouso, podendo deixar o paciente incapacitado, dependendo do tamanho da lesão”, afirma.

PRP vem sendo usado com sucesso em outros países 

O PRP é uma terapia biológica que tem mostrado resultados positivos para tratamento de lesões de tendões, ossos e cartilagem. Em 2019, quando ainda jogava no PSG, Neymar recorreu ao tratamento com PRP para acelerar a recuperação de uma lesão de tendão. Contudo, trabalhos relacionados à recuperação de músculos usando PRP ainda são incipientes em nível mundial. Assim, a pesquisa desenvolvida por Beatrice testou dois tipos de preparações de PRP em esferoides derivados de músculo esquelético e verificou seu efeito frente a uma lesão muscular.

Embora esse tipo de tratamento ainda não seja considerado de primeira linha, o fato de utilizar o próprio sangue do paciente para o procedimento é benéfico por evitar a possibilidade de rejeição. “Os dados mostram, pela primeira vez, a caracterização de um modelo de lesão em cultura 3D e o efeito do PRP no aumento da viabilidade e influência positiva no crescimento dos esferoides de C2C12”, afirma. “Estes dados, embora preliminares, podem ter grande relevância para futuros estudos de outras terapias, reduzindo o uso de modelos animais.”

Atualmente, não é comum tratar lesões musculares com PRP. Deste modo, o desenvolvimento de pesquisas é importante porque pode apontar a efetividade em tratamentos em casos que exista a dilaceração ou perda de grande quantidade de músculo. “Atualmente, um dos grandes problemas das lesões musculares graves é a formação de um tecido fibroso que pode levar a contratura e a dor crônica. O tratamento mais utilizado nas lesões com grande perda de volume muscular é o enxerto de músculo a partir de uma fonte doadora”, disse. “A ideia seria recuperar esses músculos lesionados, desde as mais simples lesões até as mais extensas, com o uso da terapia de PRP.”

A pesquisa foi desenvolvida utilizando cultura 3D para simulação do músculo, em que é realizada a lesão para posterior tratamento com PRP. Assim, os esferoides — nome dado a esse minimúsculo que é um exemplar intermediário entre uma estrutura de uma só célula e um organismo vivo, que tem multiplicidade celular — recebe o PRP derivado do sangue de camundongos. “O resultado foi positivo, com aumento do volume e número de celular vivas (viáveis) dos esferoides”, destaca.

Redução do uso de animais em pesquisas é tendência mundial 

Já existem ensaios clínicos que indicam o uso da terapia de PRP em humanos, contudo, os resultados são conflitantes no sentido de uma conclusão mais precisa, embora a técnica tenha uso clínico nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, como a Espanha. Outro aspecto importante do estudo realizado por ela, foi o fato de não utilizar modelos vivos para os testes. “É um jeito novo de abordar a cultura celular porque não utilizamos camundongos, o que vai ao encontro de uma tendência global na redução do uso de animais em pesquisas na indústria”, disse. “Ainda não se consegue substituir, mas existe uma tendência e uma necessidade de se reduzir esse uso. Imagina uma indústria conseguir testar um produto sem usar animais? Por isso criamos um modelo lesão celular 3D que não utiliza animais.” No trabalho foi padronizado o uso de cardiotoxina e cloreto de bário para fazer a lesão nesses esferoides.

Para Beatrice, a decisão em realizar a pesquisa na área básica trouxe crescimento interdisciplinar em seu trabalho de iniciação científica. “Quando comecei a procurar uma pesquisa na Faculdade, a tendência era que optasse por algo na área clínica”, lembra. “Contudo, decidi me aventurar na pesquisa de área básica, que às vezes é um campo um pouco desconhecido dos alunos da Medicina, que é muito trabalhoso e nos faz sair da zona de conforto. É uma alegria muito grande ter representado a Santa Casa e ver nosso esforço reconhecido.”

 

 

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