16/09/2021

Alunos e professores da Faculdade da Santa Casa de SP apresentam resultados da Expedição Abaré O atendimento a 74 comunidades ribeirinhas e indígenas a bordo de navio hospital-escola chega ao fim, com novas perspectivas

Alunos e professores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), participantes da Expedição Abaré em 2021, apresentaram os resultados do projeto. Na quarta-feira, 15 de setembro, eles foram recebidos pela reitoria e pelos gestores da Fundação Arnaldo de Vieira Carvalho (FAVC), mantenedora da FCMSCSP.

No mês de agosto, durante 21 dias, por meio de um navio hospital-escola, os alunos do 6º ano do curso de Medicina e professores dos cursos de Medicina, Enfermagem e Fonoaudiologia da FCMSCSP realizaram atendimentos de saúde a moradores de 74 comunidades ribeirinhas e indígenas da região do rio Tapajós, nos municípios de Santarém, Aveiro e Belterra, no estado do Pará. Ao todo, foram realizados mais de 3,7 mil atendimentos entre consultas médicas e de enfermagem, pequenos procedimentos cirúrgicos, visitas domiciliares, aplicação de vacinas, atendimentos de urgência e emergência, triagens e exames, consultas de fonoaudiologia, dispensação de medicamentos, entre outros serviços de assistência à saúde.

A ação do navio hospital-escola Abaré é desenvolvida pela Rede Integrada de Desenvolvimento Humano (RIDH) e pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), juntamente com as secretarias de Saúde dos três municípios e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). O navio Abaré é uma unidade de saúde fluvial, que presta serviços de assistência à saúde aos moradores da região há 14 anos. Além disso, enquanto o navio está em deslocamento, torna-se centro de referência para todas as comunidades que vivem às margens do rio Tapajós. “Foi um trabalho intenso, de 24 horas, num momento difícil de pandemia”, avaliou a professora Rosane Lowenthal, do Programa de Saúde Mental da FCMSCSP, e coordenadora da ação. “Havia comunidades em que as pessoas não tinham acesso ao cuidado e assistência à saúde há um ano e meio.”

Integraram a expedição os professores Rosane Lowenthal, do departamento de Saúde Mental do curso de Medicina; Karla Cristina Monteiro da Silva, do departamento de Atenção Primária do curso de Medicina; Pedro da Silva Campana, do departamento de Infectologia do curso de Medicina; Graziela Ramos Barbosa de Souza, do curso de Enfermagem; e Marcia dos Santos Souza, do curso de Fonoaudiologia.

Em realidade marcada pela miséria, carências são múltiplas e extrapolam a questão da saúde

Para a coordenadora do projeto, Rosane Lowenthal, a busca pelo entendimento da cultura local foi fundamental para que se estabelecesse uma boa comunicação (Fotos: Ewerton Valadão)

Segundo Rosane, infelizmente, a realidade da maioria das famílias atendidas é marcada pela miséria. “São comunidades muito carentes, em todos os sentidos, incluindo moradia, recursos financeiros, e que ficam localizadas a grandes distâncias de centros urbanos”, disse. Para se ter uma ideia da dificuldade de acessibilidade aos serviços de saúde, um atendimento de emergência teve que esperar 12 horas pela transferência do paciente e mais duas horas de deslocamento pelo rio para chegar ao hospital de Santarém. Em outros casos, a equipe da FCMSCSP se utilizava de lanchas para fazer o deslocamento até comunidades em que o navio não alcançava. “Aprendemos como falar com ‘aquele que fala diferente de nós’. Por mais que estejamos todos no Brasil, foi fundamental que compreendêssemos a cultura local para que fosse estabelecido um verdadeiro e respeitoso diálogo com a comunidade”, disse.

Expedição Abaré deverá integrar ampliação de atividades de extensão da FCMSCSP

A inspiração com o projeto Abaré poderá se transformar em ação permanente na FCMSCSP. A partir de 2022, com a obrigatoriedade de que a grade curricular tenha no mínimo 10% de atividades de extensão, ações como essa, de atenção à saúde e educação junto a comunidades, ganharão destaque. Antes de embarcarem rumo à expedição, os alunos e professores da Faculdade da Santa Casa de São Paulo realizaram intenso planejamento, com atividades de capacitação e desenvolvimento de pesquisas, com o objetivo de entender o lugar para o qual estavam indo, as pessoas que seriam atendidas, e o que elas precisavam. “Os alunos tiveram autonomia para atender, sempre com a equipe dando suporte e discutindo os casos”, disse Rosane. “Eles participaram de todo o processo, inclusive na prática da gestão.”

A vice-diretora do curso de Medicina, Giselle Burlamaqui Klautau, destaca que a experiência comprova a importância da extensão universitária na formação de alunos

Nesse sentido, é importante que a formação dos profissionais de saúde desenvolva competências de colaboração, comunicação, defesa da saúde coletiva, liderança, capacidade de administração, educação permanente, profissionalismo e expertise em Medicina. “Foi um aprendizado para todos sobre a importância da extensão universitária, quando o aluno é preparado para olhar e atender as demandas da comunidade, da sociedade em que a gente vive”, destaca a vice-diretora do curso de Medicina, Giselle Burlamaqui Klautau. “Só assim formaremos verdadeiros transformadores, do ponto de vista social e em nossas profissões.”

De acordo com Giselle, outro ponto que ficou evidenciado com o projeto foi a necessidade do trabalho interprofissional, que auxilia no desenvolvimento de competências que irão reforçar a qualidade do trabalho e a segurança para a atuação profissional. “Como os próprios alunos falaram: ‘nós chegamos como alunos e saímos como profissionais da saúde, com (maior) segurança no processo’”, disse. “O trabalho coletivo trará grandes frutos. O importante é que possamos ampliar o acesso dos alunos a esse tipo de experiência.”

Para reitor, resultados do projeto evidenciam o diferencial oferecido pela FCMSCSP na formação de médicos e outros profissionais de saúde

O reitor da Faculdade da Santa Casa de São Paulo, José Eduardo Lutaif Dolci, destacou a capacidade de percepção dos alunos do que verdadeiramente é a missão do médico

Ao parabenizar alunos e professores pelos excelentes resultados obtidos na Expedição Abaré, o reitor da Faculdade, José Eduardo Lutaif Dolci, anunciou que o projeto deverá integrar de modo fixo as atividades da FCMSCSP. “Quero garantir que vamos nos empenhar para que essa atividade se perpetue”, afirmou. “Vamos trabalhar para que a Expedição Abaré se transforme num projeto perene em nossa instituição de ensino, para que mais alunos possam ter a experiência que vocês tiveram.”

Em sua fala, Dolci destacou, ainda, o fato de participar há 49 anos da vida da FCMSCSP, e que este projeto vem confirmar uma afirmação habitual entre a comunidade acadêmica e docente. “Sempre falamos que a nossa Faculdade é uma escola diferente, e a prova está aí”, concluiu. “Os depoimentos de vocês me tocam profundamente, porque, verdadeiramente, a FCMSCSP é diferente das outras (instituições de ensino). Tenho absoluta convicção que outros alunos, de outras escolas – e podem escolher a que quiserem –, não fariam o que vocês fizeram, e não teriam a percepção de que vocês tiveram do que é a vida do outro lado, da compreensão do que é ser médico já nessa fase tão jovem que vocês estão.”

Alunos consideram que experiência foi transformadora

Para a aluna Beatriz Paiatto, a experiência mostrou o quanto o SUS precisa ser valorizado, entendendo suas potencialidades e limitações na busca das melhores soluções

Dois alunos foram encarregados de falar em nome do grupo sobre o projeto. Para Beatriz Paiatto, a Expedição Abaré foi uma experiência única na formação, algo transformador para todos por oferecer reflexão e aprendizado sobre a prática clínica e de assistência. “Participar (do projeto) foi algo que eu nunca esperei viver, e se não fosse por essa oportunidade, acho que nunca viveria mesmo”, disse. “O sentimento que mais se evidenciou para todos nós durante a expedição foi o de confiança, já que saímos daqui com uma base muito sólida (de conhecimento), mas lá desenvolvemos outras habilidades.”

Para ela, um dos desafios foi compreender a dinâmica do trabalho em equipe: conseguir realizar um bom trabalho com outros profissionais que no dia a dia da graduação o estudante normalmente não tem contato. “Aprendemos a lidar muito melhor com o ser humano, porque saímos da nossa cultura, da nossa zona de conforto, e tivemos que entender e atuar numa nova realidade do zero.”

Para Beatriz, a experiência colaborou para mostrar o quanto o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser valorizado, entendendo as potencialidades do sistema e se aprofundando nas limitações ainda existentes na busca de soluções. “Que os dias que passamos no barco Abaré se transformem em força motriz no futuro profissional de todos nós, para fortalecer cada vez mais o sistema público de saúde brasileiro.”

Danilo Rezende: “A expedição foi fundamental para mudar os rumos da minha vida”

Já o aluno Danilo Rezende considera que ter participado da expedição representa a realização de um sonho antigo, destacando a importância de a FCMSCSP e a FAVC terem arcado com todos os custos da viagem, o que possibilitou a participação dos alunos. Ele sempre teve interesse no tema da Medicina da Floresta, que trata dos povos originais, mas, até então, não havia tido a oportunidade de ter contato com uma comunidade com esse perfil. “A expedição trouxe a possibilidade de atendermos pessoas para além da Santa Casa (de Misericórdia), e isso amplia muito a visão do cuidado”, considera. “Foi uma experiência única e transformadora na minha vida.

A expedição serviu para eu reavaliar minhas prioridades: antes de ir, eu estava muito focado em cursinho, na residência médica, em estudar; não que isso não seja importante. Mas lá ficou bem claro que ser um bom médico não se resume a estudar e prestar residência.” Para ele, a partir de agora, separar o pessoal do profissional ficará difícil. Danilo considera que o aprendizado vivido recentemente o remeteu a uma experiência de autoconhecimento. “A expedição foi fundamental para mudar os rumos da minha vida, que pode ser resumida com uma frase conhecida: ‘médico que só medicina sabe, nem medicina sabe.’”

FAVC vai apoiar para a que o projeto de extensão se torne permanente e integre a base curricular

O presidente da FAVC, Antonio Ramos, se emocionou com o relato do trabalho realizado por alunos e professores da FCMSCSP

O presidente do Conselho Curador da Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho (FAVC), Antonio Cleidenir Tonico Ramos, garantiu que a instituição não medirá esforços, operacionais e financeiros, para viabilizar a continuidade do projeto. “Cheguei numa idade em que a gente tem alegria em falar quantos anos tem”, disse. “Eu estou chegando aos 80, e estou muito emocionado com o que assisti. Vocês estão construindo uma célula que será multiplicadora, e para que isso aconteça, têm que continuar com essa sensibilidade.”

O presidente da diretoria-executiva da FAVC, João Clímaco Penna Trindade, garantiu que o trabalho será incorporado à rotina da instituição, com previsão orçamentária a partir do próximo ano

Já para o presidente da diretoria-executiva da FAVC, João Clímaco Penna Trindade, o trabalho realizado foi pioneiro e exemplar. “Queremos agradecer aos professores da FCMSCSP e aos alunos que se dedicaram de coração e espírito a essa importante missão, o que é motivo de orgulho para a Faculdade e para a Fundação”, disse. Para ele, a participação de alunos e professores da Faculdade da Santa Casa de São Paulo na Expedição Abaré representa parte do que é entregue à sociedade no cumprimento de suas funções sociais na educação e na assistência à saúde da população carente para a realização do bem comum. Clímaco garantiu que esse trabalho será incorporado à rotina da instituição, com previsão orçamentária a partir do próximo ano. “A FAVC não se furtará a prestar apoio a esse grande projeto de extensão”, disse. “Não vamos poupar esforços e recursos para que a Expedição Abaré seja mantida no ano 2022, e com a participação de um contingente maior de alunos.”

Além de coordenadores de cursos, estiveram presentes no evento o gerente-geral da FAVC, João Carlos Nunes; o vice-reitor da FCMSCSP, Irineu Francisco Delfino Silva Massaia; o diretor do curso de Medicina, Adriano Namo Cury; a diretora do curso de Enfermagem, Lívia Keismanas de Ávila; a diretora do curso de Fonoaudiologia, Noemi Takiuchi; e o diretor cursos Superiores de Tecnologia, Rafael Eidi Goto.

A Expedição Abaré em números

  • 977 consultas médicas
  • 21 visitas domiciliares
  • 1961 vacinas de rotina
  • 507 vacinas anti-covid
  • 104 consultas de Enfermagem
  • 65 coleta para exame de Papanicolau
  • 71 consultas de pré-natal
  • 28 consultas de Fonoaudiologia

Comunidades atendidas e tempo de permanência dos alunos e professores da Faculdade da Santa Casa de SP

  • Município de Santarém – 41 comunidades atendidas em dez dias
  • Município de Belterra – 18 comunidades atendidas em cinco dias
  • Município de Aveiro – 15 comunidades atendidas em cinco dias

A expedição rendeu novos projetos de pesquisa

  • Diagnóstico das necessidades e demandas da populações ribeirinhas
  • Expedição Abaré- percepção de alunos e professores da FCMSCSP
  • Sono e saúde mental de crianças ribeirinhas
  • Impacto do planejamento e da execução do Projeto Expedição Barco Abaré na formação acadêmica, profissional e pessoal do aluno do sexto ano do curso de medicina

Percepção dos alunos sobre o projeto

“Foi uma grande experiência de convívio social. Formamos novas relações, conhecemos histórias e nos aproximamos de quem já conhecíamos.”
Alexander Watanabe Ambrizi

“Me entendi como profissional da saúde, entendi a força do SUS e o potencial da equipe multidisciplinar.”
Alice Mesquita

“A valorização das potencialidades emergiu como necessidade urgente – potencialidade de todos: nossas, dos pacientes, do SUS.”
Amanda Caboclo

“Não consigo mais imaginar que meu currículo acadêmico seria completo sem essa experiência na minha formação.”
Artur Menezes Casagrande Herdeiro

“Não sei como eu iria me formar antes sem saber tudo isso, que vai muito além da medicina.”
Beatriz Paiatto

“Essa viagem ampliou nossa visão do que é Saúde, implicando no nosso crescimento profissional, na autoconfiança pessoal e na consciência de que estamos no caminho certo.”
Caio Honda Rampazzo Del Valhe

“Começamos como alunos e professores, terminamos como equipe e amigos.”
Danilo Rezende

“Desenvolvemos mecanismos de comunicação que eu nem imaginava. É completamente diferente se comunicar com alguém em uma realidade cultural e social completamente distinta da sua.”
Helena Regina Tenorio

“Entramos em contato com outras realidades socioeconômicas-culturais e suas particularidades, o que rendeu uma troca maravilhosa de conhecimentos, respeito e admiração.”
Helena Morad

“Foi uma oportunidade de crescimento inigualável, não só como profissional mas também como pessoa.”
Lucas Kataoka

 

 

 

 

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